sábado, 22 de janeiro de 2011

Minha Guerra Alheia



É o novo livro de Marina Colasanti

crédito: Marlene Gandra

Marina Colasanti fala com serenidade das guerras que presenciou


Marlene Gandra
marlenecult@hotmail.com
Jornal Cantares (janeiro de 2011)

A escritora Marina Colasanti lança, nacionalmente, Minha Guerra Alheia. Com mais de 30 livros publicados, a jornalista, tradutora e artista plástica, recebeu, em 2010, o maior prêmio literário do Brasil, o Jabuti, pelo seu livro Passageira em Trânsito.
Nascida em Asmara (Eritreia), Etiópia, África, em 26 de setembro de 1937, mudou-se para o Brasil aos onze anos. Mora no Rio de Janeiro e faz palestras e conferências em diversos países.
Marina diz que as pessoas sempre lhe perguntam sobre sua identidade. “Não sei como é ter uma identidade. Querem-me brasileira. Mas será que é só por que moro no Brasil? Eu sou eu, não tenho uma identidade.”
Orgulhosa por destacar a classe feminina, afirma que se acreditasse em reencarnação queria nascer sempre mulher. “Existem mulheres brasileiras que tiram dinheiro da boca da surucucu. Quantas sustentam sozinhas seus filhos, tanto na zona rural quanto urbana. Vivem do minúsculo dinheiro. A mulher não é só doçura, é guerreira.”
Ela fala que honra é conhecimento. “O Brasil está vendo escrever. As mulheres são presenças maiores na poesia. A mulher passou a ter voz teórica consignada. A poesia é terreno, loteamento.”
Citando a poeta Adélia Prato, que foi palestrante no Fórum das Letras de Ouro Preto em novembro de 2010, Colasanti fala com firmeza e como quem se constasse novidade: “Adélia foi bancada por Affonso Romano de Sant’Anna e Carlos Drummond de Andrade. Ela tinha necessidade de se firmar, porque há, por parte dos homens, rejeição voltada ao universo feminino. A mulher vende menos que os homens. As mulheres são as que mais leem ficção e poesia no mundo. Isso é estatística. Affonso é atento ao feminismo.”
Ela reclama que não existe crítica literária. “O público fica perdido mediante uma publicação. O Brasil lança muitas obras por dia. Está faltando respeito crítico. A literatura não tem crítica. É luta sem quartel entre os divulgadores. O livro não divulgado o leitor não compra.”
Ressalta que a história não é feita só de napoleões, mas de pessoas comuns. “Historiadores leram diários de mulheres, de todas as classes sociais, para trazer a vida à claridade. Estes diários mostram a vida nas fazendas, a literatura, a lida com a arte. Arte através da palavra. O emudecimento da mulher. O canome é masculino. Isso para que elas se mantêm dentro do curral linguístico.”
Destaca que o ser humano é sempre realidade. “As mulheres sabem que sobre elas existem um olhar mais severo. Isso é muito estimulante”, comenta a escritora.

Filha de ex-ator italiano Manfredo Colasanti

Em 1936, tropas italianas tomaram Addis Abeda, capital da Etiópia. Frisando que Manfredo, apaixonado por guerras, foi lutar voluntariamente na África em favor de seu país. Em 1941 os italianos são expulsos.
Marina tinha três anos de idade quando sua familia retornou à Itália (lembrando que ela nasceu em 1937), onde presencia a II Guerra Mundial. Relata em seu livro autobiográfico, Minha Guerra Alheia: ‘As bombas caem devagar. Não sei como é possível, com aquele peso. Mas caem lentas ou eu as vi caindo lentas, bem lentas. E sobre a minha cabeça, vindo na minha direção. Não era a mim que elas queriam, não era aquela família deitada no mato o alvo de tanta munição.’
A escritora fala da guerra como se isso fosse coisa normal. Tranquila e sorridente. “Em guerra ninguém sai vencedor? É sabido. Há sempre os cacos para se juntar. Cacos que podem ser corpos mutilados, famintos, destroçados, adoecidos. Cacos que podem ser almas sufocadas, espezinhadas, indignadas, pisadas… Terras inteiras devastadas…”
E questiona: ‘Se a guerra é minha, como pode ser alheia? Se é alheia, como pode ser minha? Se não é minha, pertence a outrem. É uma guerra estranha, estrangeira.’

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